Ondas de calor ainda são negligenciadas no Brasil e podem se intensificar com novo El Niño

4 min de leitura

Pesquisadora alerta para aumento dos riscos à saúde e aponta que 50 mil mortes foram associadas a ondas de calor entre 2000 e 2020

As ondas de calor ainda são um desastre “completamente negligenciado” no Brasil e podem se tornar mais frequentes e intensas com a chegada de um novo episódio de El Niño. O alerta é da professora do Departamento de Meteorologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e integrante do Comitê de Especialistas em Monitoramento Climático da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Renata Libonati.

Segundo dados analisados pela pesquisadora a partir do Sistema Único de Saúde (SUS), 50 mil mortes associadas a ondas de calor foram registradas entre 2000 e 2020 em 14 regiões metropolitanas do país.

Para Renata, o número demonstra que o impacto das altas temperaturas ainda não recebe a devida atenção no Brasil. As mortes relacionadas ao calor, segundo ela, costumam ocorrer de maneira gradual e não têm a mesma visibilidade de tragédias em que as vítimas morrem imediatamente.

O alerta foi feito durante o painel “O que esperar do El Niño”, realizado nesta terça-feira (11), no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Também participaram do debate os pesquisadores Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), e José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

El Niño pode agravar extremos climáticos

Os especialistas afirmam que o fenômeno climático, que altera a circulação dos ventos e influencia o clima em diferentes regiões do planeta, pode contribuir para que 2026 registre temperaturas excepcionalmente altas.

Além dos impactos sobre a saúde, Renata Libonati apresentou dados que relacionam o El Niño às ondas de calor, secas e incêndios. Segundo ela, o fenômeno pode favorecer a ocorrência simultânea desses eventos, criando condições mais propícias para a propagação do fogo.

Nas últimas quatro décadas, as condições de perigo elevado de incêndios aumentaram cerca de 18% durante anos de El Niño nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

Impactos serão diferentes em cada região

De acordo com José Marengo, os efeitos do El Niño não serão iguais em todo o território brasileiro.

No Sul, o fenômeno costuma estar associado ao aumento das chuvas e, consequentemente, ao maior risco de enchentes.

Já no Norte e Nordeste, a tendência é de redução das chuvas e aumento do risco de seca. No Centro-Oeste, pode ocorrer atraso no início da estação chuvosa e aumento das ondas de calor. No Sudeste, a previsão é de temperaturas elevadas e maior irregularidade das chuvas.

O pesquisador destacou que o El Niño não cria necessariamente novos problemas, mas pode agravar situações que já existem, afetando setores como agricultura, transporte, fornecimento de energia e economia.

Brasil precisa acelerar adaptação

O pesquisador Paulo Artaxo, que participou dos três últimos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), afirmou que o Brasil precisa acelerar as medidas de adaptação diante de um cenário de temperaturas mais elevadas e maior frequência de eventos extremos.

Segundo ele, o país já apresenta aquecimento médio próximo de 2°C, acima da média global.

Artaxo defendeu que experiências anteriores com desastres climáticos sejam utilizadas para melhorar a preparação dos governos municipais, estaduais e federal.

Ele também ressaltou que as políticas de adaptação precisam considerar as desigualdades sociais, já que os eventos extremos afetam principalmente as populações mais vulneráveis.

Entre os fatores que aumentam a vulnerabilidade estão as condições de moradia, o acesso aos serviços de saúde, a exposição ao calor e a possibilidade de utilizar sistemas de refrigeração.

Fonte: Agência Brasil

Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

MARCADO:
Compartilhar este artigo

Descubra mais sobre Folhetim Amazônico

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo