Pesquisas identificam relações entre o transtorno, sistema imunológico, genética e doenças físicas
A depressão vem sendo estudada pela ciência de forma cada vez mais ampla. Além das alterações relacionadas ao cérebro e aos neurotransmissores, pesquisas recentes apontam que o transtorno também pode estar associado ao funcionamento do sistema imunológico, à genética e a diferentes condições físicas.
Um estudo realizado por pesquisadores da Escola de Medicina Icahn do Mount Sinai, em Nova York, identificou alterações imunológicas em pessoas com transtorno depressivo maior semelhantes às observadas em doenças inflamatórias da pele, especialmente a dermatite atópica.
Os cientistas encontraram a participação da chamada via imunológica Th2, relacionada ao receptor alfa da interleucina-4 (IL-4R), que participa do controle de processos inflamatórios.
A descoberta chamou atenção porque medicamentos que bloqueiam essa via já são utilizados no tratamento de algumas doenças dermatológicas. Um exemplo é o dupilumabe, indicado para casos moderados a graves de dermatite atópica.
Os pesquisadores avaliam que essa mesma via poderá ser investigada futuramente como possível alvo para tratamentos contra a depressão. No entanto, a possibilidade ainda precisa ser estudada em pesquisas clínicas com seres humanos e não significa que medicamentos utilizados atualmente para doenças de pele possam ser prescritos para pessoas com depressão.
Depressão e doenças físicas
A relação entre saúde mental e física também aparece em outro estudo, realizado pela Universidade do Colorado em Boulder, nos Estados Unidos, e publicado na revista Nature Communications.
Os pesquisadores analisaram informações de quase 2 milhões de pessoas e avaliaram 73 doenças físicas e 13 transtornos psiquiátricos. A pesquisa identificou sobreposição de fatores de risco genéticos em 42% das associações analisadas.
Depressão e ansiedade, por exemplo, apresentaram relações genéticas com doenças cardiovasculares. Outros transtornos psiquiátricos também demonstraram conexões com problemas gastrointestinais, alterações do sono e doenças do sistema geniturinário.
Segundo especialistas, essas relações podem ser explicadas por diferentes mecanismos. Entre eles estão fatores genéticos e alterações epigenéticas, que podem modificar a maneira como determinados genes são expressos ao longo da vida.
Além disso, a própria depressão pode contribuir para mudanças de hábitos, como redução da atividade física, alterações no sono e na alimentação, aumentando o risco de outras doenças.
O caminho inverso também pode ocorrer. Pessoas que convivem com dores crônicas, doenças graves ou processos inflamatórios podem apresentar maior risco de desenvolver sintomas depressivos.
Uma relação entre cérebro e organismo
Para especialistas, os resultados reforçam a compreensão de que cérebro, sistema imunológico, hormônios, metabolismo, sono e outros mecanismos do organismo estão conectados.
Isso não significa, porém, que a depressão tenha uma única causa. O transtorno é considerado multifatorial e pode envolver aspectos biológicos, genéticos, psicológicos, sociais e ambientais.
As novas pesquisas ajudam a ampliar o conhecimento sobre esses mecanismos e podem, no futuro, contribuir para o desenvolvimento de tratamentos mais específicos para diferentes perfis de pacientes.
Outro estudo recente também analisou um fenômeno conhecido como “amortecimento”, no qual pessoas podem ter dificuldade de aproveitar momentos positivos por anteciparem que aquela sensação de felicidade irá desaparecer. A pesquisa investigou a relação desse comportamento com sintomas depressivos.
Fonte: Correio Braziliense
Foto: Reprodução/Magnific