Estudo da Fundação do Câncer aponta casos em olhos, mucosas e órgãos internos e destaca os desafios para diagnóstico e tratamento
O melanoma é conhecido principalmente como um tipo agressivo de câncer de pele, mas a doença também pode se desenvolver em outras partes do corpo. Um estudo da Fundação do Câncer chama atenção para os chamados melanomas extracutâneos, que podem atingir os olhos, mucosas e órgãos dos sistemas genital e digestório.
A 12ª edição do boletim “Análises e Tendências em Câncer”, publicada neste mês, reúne dados de registros hospitalares de oncologia e reforça a importância de identificar a doença o mais cedo possível. Segundo os especialistas, as formas extracutâneas são menos frequentes, mas podem apresentar comportamento mais agressivo e maior potencial de disseminação.
O levantamento analisou 42.255 casos registrados no país. Desse total, 92,2% correspondiam a melanomas de pele, enquanto 5,7% eram oculares e 2,5% atingiam mucosas.
Entre os melanomas que não se originam na pele, o olho foi o principal local de origem. Do total de casos extracutâneos analisados entre 1990 e 2021, 75% estavam relacionados à região ocular. Na sequência apareceram os órgãos genitais, com 12,8%, e o sistema digestório, com 8,2%.
Melanoma ocular pode não apresentar sintomas no início
Um dos principais alertas do estudo está relacionado ao melanoma ocular. A doença pode permanecer silenciosa nas fases iniciais e ser descoberta durante exames de rotina.
Quando os sinais aparecem, podem incluir visão embaçada, flashes luminosos, manchas no campo visual e perda da visão. Como esses sintomas podem ser inespecíficos, a procura por avaliação médica é importante para evitar atrasos no diagnóstico.
O consultor médico da Fundação do Câncer e coordenador do estudo, Alfredo Scaff, destaca que o controle do câncer depende da identificação precoce e do início oportuno do tratamento.
Cirurgia é principal tratamento inicial
No SUS, a cirurgia da lesão primária, associada à retirada dos linfonodos quando necessário, está entre as principais estratégias utilizadas contra o melanoma.
Entre 2014 e 2023, a cirurgia correspondeu a 84,7% dos tratamentos iniciais registrados para melanoma de pele no Brasil. O percentual foi maior no Sudeste, chegando a 89,6%, enquanto a região Norte apresentou 64,4%.
O estudo também identificou dificuldades relacionadas ao acesso aos serviços especializados. Embora a maioria dos pacientes tenha realizado o tratamento na própria região onde morava, o Centro-Oeste apresentou a maior proporção de deslocamentos para atendimento oncológico, com 20,2% dos casos.
Imunoterapia ampliou possibilidades contra casos avançados
O tratamento do melanoma também passou por mudanças importantes nos últimos anos com a utilização de medicamentos imunoterápicos.
No Brasil, medicamentos da classe anti-PD-1, como nivolumabe e pembrolizumabe, foram aprovados para uso no tratamento da doença. Em 2020, a Conitec incorporou ao SUS a primeira imunoterapia para melanoma metastático.
Segundo Alfredo Scaff, a imunoterapia aumentou de forma significativa a resposta de pacientes com melanoma avançado ou metastático. No entanto, o coordenador de Assistência do Instituto Nacional de Câncer (Inca), Gélcio Mendes, ressalta que as evidências para o uso de imunoterapia em melanomas extracutâneos ainda são limitadas.
Outro desafio é o preço dos medicamentos de alta tecnologia. Especialistas defendem medidas como compras centralizadas pelo Ministério da Saúde e ampliação da produção nacional para reduzir custos e facilitar o acesso dos pacientes do SUS.
Mais de 9 mil novos casos de melanoma de pele são esperados em 2026
Apesar de representar uma parcela menor dos cânceres de pele, o melanoma cutâneo é considerado mais agressivo e apresenta maior capacidade de disseminação.
Entre 1990 e 2021, foram registrados 30.614 casos novos de melanoma de pele no Brasil. Mulheres responderam por 51,3% dos registros e homens por 48,7%.
Para o triênio 2026-2028, o Inca estima 9.360 novos casos de melanoma de pele no Brasil somente em 2026. A previsão corresponde a 19,2 casos por 1 milhão de habitantes, com maior estimativa entre homens.
A exposição à radiação ultravioleta continua sendo um dos principais fatores de risco para o câncer de pele. O risco também varia conforme o tipo de pele e a intensidade e frequência da exposição ao sol.
O estudo da Fundação do Câncer reforça que prevenção, acompanhamento médico e diagnóstico precoce são fundamentais para aumentar as chances de tratamento e controle da doença.
Fonte: Agência Brasil, reportagem de Daniella Almeida.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.