Candidata do PL se apresenta como alternativa à velha política, mas trajetória reúne família tradicional, patrimônio milionário e empreendimentos com prazos adiados
Maria do Carmo Seffair chega à disputa pelo Governo do Amazonas com o discurso de representar uma renovação na política estadual. A candidata do PL se apresenta como alternativa aos grupos que, segundo ela, dominam a política amazonense há décadas.
Mas sua trajetória também passa por relações familiares, empresariais e políticas que fazem parte da história do Estado.
O sobrenome Lins
O nome completo da candidata é Maria do Carmo Seffair Lins de Albuquerque. Na urna, ela utiliza o nome “Professora Maria do Carmo”.
Maria do Carmo é casada com Wellington Lins de Albuquerque, irmão do deputado federal Átila Lins. O parlamentar, atualmente no PSD, integra o grupo político de Omar Aziz, que também disputa o Governo do Amazonas.
O vínculo familiar não significa que Maria do Carmo e Átila Lins estejam no mesmo palanque. Mas coloca a candidata, por casamento, dentro de uma família com décadas de presença na política amazonense.
Um histórico que vem dos anos 1990
A relação entre os irmãos Átila e Wellington Lins também aparece em registros da imprensa nacional desde a década de 1990.
Em reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 20 de outubro de 1997, o jornal informou que Wellington Lins havia sido nomeado diretor do então DNER (Departamento Nacional de Estradas de Rodagem) no Amazonas. Segundo a reportagem, a indicação havia sido feita pelo próprio irmão, o então deputado federal Átila Lins.
A publicação também relatou que Wellington Lins enfrentava, naquele período, um processo criminal no qual o Ministério Público do Amazonas o acusava de estelionato em uma transação relacionada a contratações realizadas quando ele presidia o Instituto de Previdência do Estado.
Segundo a Folha, Wellington chegou a ter a prisão decretada em 1997 por não se apresentar à Justiça e foi detido no aeroporto de Manaus, sendo posteriormente liberado. A reportagem registrou ainda que ele alegava ser vítima de perseguição política e negava qualquer irregularidade.
A mesma reportagem informou que Wellington era empresário e presidia a Planecom Empreendimento e Construção Ltda., empresa que atuava no Amazonas e em outros estados da região. O texto também citou dificuldades financeiras alegadas pela própria empresa em processo judicial.
Os fatos relatados pela Folha são de 1997 e devem ser entendidos dentro daquele contexto histórico. A reportagem não equivale a uma condenação criminal e registra a versão apresentada pela defesa de Wellington Lins.
Patrimônio de R$ 118 milhões
Outro ponto que chama atenção na trajetória da candidata é a evolução do patrimônio declarado à Justiça Eleitoral.
Em 2022, Maria do Carmo declarou R$ 14,77 milhões em bens. Em 2026, o patrimônio declarado chegou a R$ 118,47 milhões.
O crescimento nominal foi de aproximadamente 702% em quatro anos.
A candidata atribui a evolução patrimonial ao reinvestimento de lucros e dividendos e à expansão de suas empresas.
O aumento do patrimônio, por si só, não significa irregularidade. Mas o salto declarado é um dado relevante para o eleitor conhecer a trajetória financeira de quem disputa o Governo do Amazonas.
Fametro e programas federais
Maria do Carmo também está à frente do Grupo Fametro, instituição privada de ensino superior que participa de programas federais de acesso ao ensino.
Levantamento citado em reportagens aponta 740 contratos do Fies e 48 bolsas do Prouni vinculados à instituição em Manaus.
A participação nesses programas, por si só, não representa irregularidade. Fies e Prouni são políticas públicas federais utilizadas por instituições privadas de ensino de todo o país.
Santa Casa ainda aguarda conclusão
O Grupo Fametro arrematou a Santa Casa de Misericórdia de Manaus em 2019, com o projeto de transformar o histórico prédio em um Hospital Universitário.
Ao longo dos anos, diferentes prazos foram anunciados para a conclusão. A previsão mais recente aponta para 2027.
O projeto prevê atendimento pelo SUS, consultórios, serviços de diagnóstico e estrutura voltada à formação de estudantes.
Tropical Hotel
O antigo Tropical Hotel também foi adquirido pelo Grupo Fametro e teve diferentes previsões de reabertura.
Até o momento, o empreendimento ainda não voltou a funcionar como hotel.
A empresa atribui os atrasos a questões relacionadas ao projeto e aos procedimentos necessários para recuperação do complexo.
A pergunta que fica
Maria do Carmo tem o direito de se apresentar como candidata de renovação e defender uma nova forma de fazer política.
Mas o eleitor também precisa conhecer a trajetória que acompanha esse discurso: os vínculos familiares com uma família tradicional da política amazonense, o histórico empresarial, a evolução patrimonial e os empreendimentos que ainda aguardam conclusão.
A pergunta, portanto, não é apenas quem Maria do Carmo diz que pretende ser.
É até que ponto sua trajetória representa uma ruptura com a velha política ou uma nova apresentação de relações familiares, empresariais e políticas que já fazem parte da história do Amazonas.