Dois anos após o assassinato de Geovana Costa Martins, de 20 anos, a mãe da jovem, Marta Costa, continua esperando pela definição da data do julgamento dos acusados. A Justiça do Amazonas já decidiu que Camila Barroso da Silva, ex-patroa de Geovana, e Antonio Cheton Lopes de Oliveira serão levados ao Tribunal do Júri.
A decisão de pronúncia dos dois réus foi proferida em 28 de abril de 2026 e se tornou definitiva em 28 de julho, depois do encerramento do prazo para recursos. O processo está agora na etapa de preparação para a sessão do júri, mas ainda não há uma data definida para o julgamento.
Para Marta, a espera prolonga o sofrimento provocado pela morte da filha. Segundo ela, a demora faz com que as lembranças do crime voltem constantemente.
“Acima de tudo é angustiante, porque está mexendo o tempo todo, então traz memórias. Eu sinto muito porque quem mais sofre sou eu, porque sou mãe dela. Perdi minha filha dessa forma”, afirmou.
A mãe espera que o julgamento seja marcado rapidamente. Embora reconheça que uma condenação não poderá devolver Geovana, Marta afirma que a responsabilização dos acusados poderá trazer algum alívio à família.
“Não vai trazer minha filha de volta, eu sei que não vai trazer ela de volta, mas eu vou ficar um pouquinho mais sossegada quando eu souber que todos estão pagando”, disse.
Relação entre Geovana e a ex-patroa chamou atenção da família
Geovana trabalhava como babá para Camila Barroso. De acordo com o relato da mãe, inicialmente a jovem dizia que apenas cuidava da filha da patroa.
Marta conta que começou a desconfiar da relação entre as duas depois de perceber que Camila procurava Geovana com frequência. Mesmo quando a filha passou um período morando com ela, aproximadamente um mês antes da morte, as ligações continuaram acontecendo diariamente.
Em uma ocasião, Marta afirma ter visto uma mensagem enviada por Camila pelo Instagram. Segundo o relato, a ex-patroa dizia que Geovana precisava ir até sua casa para ser “treinada” antes de uma viagem e mencionava ainda que a jovem deveria tomar um medicamento contra vermes.
Na época, a mãe procurou orientação jurídica e chegou a levantar a possibilidade de a filha estar sendo usada para transportar drogas. A hipótese de uma viagem para fora do país também foi investigada pela Polícia Civil.
Geovana, segundo Marta, dizia que faria apenas uma viagem com Camila e depois deixaria de trabalhar na casa.
“Eu sempre dizendo: ‘Geovana, não volte’. Ela: ‘Não, eu vou só fazer essa viagem com ela’”, contou.
Desaparecimento e descoberta da morte
A família começou a perceber que havia algo errado quando Geovana deixou de fazer publicações nas redes sociais. Segundo Marta, a filha tinha o hábito de postar diariamente e passou três dias sem aparecer.
Depois de tentar contato por telefone e pelas redes, a mãe recebeu uma ligação de Camila perguntando se Geovana estava em sua casa.
Pouco depois, Marta afirma ter recebido uma fotografia da filha com marcas de violência.
“Eu vi uma foto da minha filha, toda machucada. Estão machucando, minha filha está em tortura, minha filha está em algum canto, minha filha está morrendo”, relatou.
A mãe conta que comunicou que procuraria a polícia para registrar o desaparecimento. Camila teria ido até a residência de Marta, entregue documentos de Geovana e acompanhado a família até a delegacia.
As buscas continuaram até que Marta descobriu que o corpo da filha já havia sido encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML).
Investigação apontou cárcere e exploração sexual
Geovana foi dada como desaparecida em 19 de agosto de 2024. Segundo a investigação da Polícia Civil, ela era mantida em cárcere privado e submetida à exploração sexual enquanto trabalhava para Camila.
A jovem foi assassinada naquela noite e levada para uma área de mata no bairro Tarumã, na Zona Oeste de Manaus. O corpo foi localizado no dia seguinte com sinais de violência. A investigação apontou traumatismo craniano como causa da morte.
Camila foi presa preventivamente em agosto de 2024. Antonio Cheton Lopes de Oliveira foi preso no mês seguinte e passou a responder pelo caso.
Em novembro daquele ano, Camila deixou o presídio e passou a cumprir prisão domiciliar, com monitoramento por tornozeleira eletrônica.
Processo está próximo da marcação do júri
Com a decisão de pronúncia já definitiva, o processo entrou na segunda fase do procedimento do Tribunal do Júri.
Nesta etapa, acusação e defesa são chamadas a indicar as testemunhas que pretendem levar ao julgamento e podem solicitar outras diligências. O Ministério Público já apresentou seu rol de testemunhas.
Depois do cumprimento dessas providências, o processo estará pronto para que seja definida a data da sessão do Tribunal do Júri.
Enquanto aguarda, Marta diz que convive diariamente com a saudade e com o temor de que o caso perca espaço com o passar do tempo.
“Fica esse sentimento, porque me faz falta. Vêm as lembranças, bate a saudade, e hoje eu não tenho mais minha filha. Eu estou esperando agora que essa data seja marcada, o mais rápido possível”, afirmou.
A mãe também reforça o pedido para que o assassinato de Geovana não seja esquecido.
“Que não fique no esquecimento. Não caia no esquecimento depois desse tempo”, declarou.
📸 Foto: Arquivo pessoal